A persona é quem aprendemos a ser para o mundo
Na Psicologia Junguiana, a Persona é a face que apresentamos ao mundo. Ela se desenvolve a partir dos papéis que assumimos, das expectativas sociais e das formas que aprendemos para nos relacionar com as outras pessoas.
Somos filhos, pais, profissionais, parceiros, amigos, estudantes, cuidadores. Em cada contexto, precisamos adaptar nossa maneira de nos expressar. Por isso a Persona nos ajuda justamente nessa adaptação: ela é uma espécie de ponte entre o indivíduo e o mundo social.
Por isso, ter uma Persona não significa ser falso. Pois, sabemos que ela é necessária para a vida em sociedade. Um médico precisa assumir determinadas responsabilidades diante de seus pacientes; um professor precisa ocupar uma posição diferente daquela que ocupa com seus amigos; uma pessoa pode precisar exercer firmeza no trabalho e sensibilidade em casa. Assim, a capacidade de transitar por diferentes papéis faz parte de uma personalidade saudável.
1. Quando a Persona deixa de ser uma roupa e passa a ser a nossa identidade
O problema surge quando começamos a nos identificar excessivamente com a Persona e já não conseguimos distinguir quem somos daquilo que precisamos desempenhar.
Podemos nos apegar tanto à imagem de “ser forte”, “ser competente”, “ser gentil”, “ser bem-sucedido”, “ser indispensável” ou “ser aquela pessoa que dá conta de tudo” que passamos a vivenciar qualquer situação que ameace essa imagem como uma ameaça à nossa própria identidade.
É como se, pouco a pouco, deixássemos de usar a Persona e passássemos a acreditar que somos apenas aquilo que ela representa.
Quanto mais nossa autoestima depende dessa imagem, mais difícil pode ser abrir mão dela.
2. Por que é tão difícil se desprender da persona?

Não construímos a Persona sozinhos. O reconhecimento que recebemos também a alimenta.
Quando recebemos elogios por sermos fortes, inteligentes, generosos, produtivos ou sempre disponíveis, aprendemos a associar essas características ao pertencimento, à aprovação e ao nosso valor. Com o tempo, podemos sentir que precisamos manter esse papel para conquistar aceitação e amor.
Por isso, abandonar uma Persona muito rígida pode despertar medo, culpa, vergonha ou sensação de fracasso.
Uma pessoa que sempre foi vista como forte pode sentir vergonha ao admitir que precisa de ajuda. Alguém reconhecido por sua competência pode ter enorme dificuldade em dizer “não sei”. Da mesma forma quem construiu sua identidade em torno de cuidar dos outros pode sentir culpa quando começa a cuidar de si.
3. Quando a persona fica rígida
Uma Persona muito rígida pode nos afastar de partes importantes de nós mesmos pois para sustentar determinada imagem, podemos precisar esconder características que parecem incompatíveis com ela.
4. Persona e sombra
Podemos relegar ao inconsciente tudo aquilo que não combina com a imagem que aprendemos a apresentar. A pessoa que precisa ser sempre forte pode relegar sua vulnerabilidade à Sombra. Aquela que precisa ser sempre gentil pode não reconhecer sua raiva. Quem precisa ser admirado pode evitar reconhecer a própria insegurança ou admitir o próprio fracasso.
Assim, quanto mais estreita é a imagem que permitimos ter de nós mesmos, maior pode ser aquilo que fica na Sombra.
5. Quando a persona é ameaçada
Quando o ego se identifica intensamente com uma determinada Persona, pode reagir de maneira desproporcional a qualquer experiência que ameace essa imagem.
Uma crítica profissional pode nos fazer pensar: “Eu sou incompetente.”
Uma rejeição pode nos levar a pensar: “Eu não sou digno de ser amado.”
Um erro pode nos fazer concluir: “Eu sou um fracasso.”
Precisar de ajuda pode despertar a sensação de “eu não sou forte o suficiente”.
Nesse sentido, podemos falar de um ego mais frágil e excessivamente dependente da Persona: quanto mais o senso de valor pessoal depende de manter uma determinada imagem, mais ameaçador se torna tudo aquilo que revela que somos diferentes, limitados ou contraditórios.
6. Precisamos deixar a persona?
O objetivo da Psicologia Junguiana não é abandonar a Persona, mas torná-la mais flexível e consciente.
Uma Persona saudável nos permite desempenhar nossos papéis sem ficarmos aprisionados a eles. Logo, odemos ser profissionais competentes sem precisar ser perfeitos. Da mesma forma podemos cuidar dos outros sem precisar estar sempre disponíveis. Ou ainda podemos ser fortes e, ao mesmo tempo, reconhecer nossa fragilidade.
A questão não é deixar de ter uma imagem social, mas conseguir retirá-la quando ela já não é necessária. Como uma roupa, a Persona precisa servir ao indivíduo — e não o indivíduo viver para servir à roupa.