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Dra. Alana Dariva | Terapeuta de Orientação Junguiana

A persona é quem aprendemos a ser para o mundo

Na Psicologia Junguiana, a Persona é a face que apresentamos ao mundo. Ela se desenvolve a partir dos papéis que assumimos, das expectativas sociais e das formas que aprendemos para nos relacionar com as outras pessoas.

Somos filhos, pais, profissionais, parceiros, amigos, estudantes, cuidadores. Em cada contexto, precisamos adaptar nossa maneira de nos expressar. A Persona nos ajuda justamente nessa adaptação: ela é uma espécie de ponte entre o indivíduo e o mundo social.

Por isso, ter uma Persona não significa ser falso.

Ela é necessária para a vida em sociedade. Um médico precisa assumir determinadas responsabilidades diante de seus pacientes; um professor precisa ocupar uma posição diferente daquela que ocupa com seus amigos; uma pessoa pode precisar exercer firmeza no trabalho e sensibilidade em casa. A capacidade de transitar por diferentes papéis faz parte de uma personalidade saudável.

  1. Quando a Persona deixa de ser uma roupa e passa a ser a nossa identidade

O problema surge quando começamos a nos identificar excessivamente com a Persona e já não conseguimos distinguir quem somos daquilo que precisamos desempenhar.

Podemos nos tornar tão apegados à imagem de “ser forte”, “ser competente”, “ser gentil”, “ser bem-sucedido”, “ser indispensável” ou “ser aquela pessoa que dá conta de tudo” que qualquer situação que ameace essa imagem passa a ser vivida como uma ameaça à própria identidade.

É como se, pouco a pouco, deixássemos de usar a Persona e passássemos a acreditar que somos apenas aquilo que ela representa.

Quanto mais nossa autoestima depende dessa imagem, mais difícil pode ser abrir mão dela.

2. Por que é tão difícil se desprender da Persona?

Porque a Persona não é construída apenas por nós. Ela também é alimentada pelo reconhecimento que recebemos.

Quando somos elogiados por sermos fortes, inteligentes, generosos, produtivos ou sempre disponíveis, aprendemos que essas características nos garantem pertencimento, aprovação e valor. Com o tempo, podemos sentir que precisamos continuar desempenhando esse papel para sermos aceitos ou amados.

Por isso, abandonar uma Persona muito rígida pode despertar medo, culpa, vergonha ou sensação de fracasso.

Uma pessoa que sempre foi vista como forte pode sentir vergonha ao admitir que precisa de ajuda. Alguém reconhecido por sua competência pode ter enorme dificuldade em dizer “não sei”. Quem construiu sua identidade em torno de cuidar dos outros pode sentir culpa quando começa a cuidar de si.

3. Quando a Persona fica rígida

Uma Persona muito rígida pode nos afastar de partes importantes de nós mesmos. Para sustentar determinada imagem, podemos precisar esconder características que parecem incompatíveis com ela.

4. Persona e Sombra.

Tudo aquilo que não combina com a imagem que aprendemos a apresentar pode ser empurrado para o inconsciente. A pessoa que precisa ser sempre forte pode relegar sua vulnerabilidade à Sombra. Aquela que precisa ser sempre gentil pode não reconhecer sua raiva. Quem precisa ser admirado pode ter dificuldade em admitir insegurança ou fracasso.

Assim, quanto mais estreita é a imagem que permitimos ter de nós mesmos, maior pode ser aquilo que fica na Sombra.

5. Quando a Persona é ameaçada

Quando o ego está muito identificado com uma determinada Persona, qualquer experiência que coloque essa imagem em risco pode ser vivida de maneira desproporcional.

Uma crítica profissional pode ser sentida como “eu sou incompetente”.
Uma rejeição pode se transformar em “eu não sou digno de ser amado”.
Um erro pode ser vivido como “eu sou um fracasso”.
Precisar de ajuda pode despertar a sensação de “eu não sou forte o suficiente”.

Nesse sentido, podemos falar de um ego mais frágil e excessivamente dependente da Persona: quanto mais o senso de valor pessoal depende de manter uma determinada imagem, mais ameaçador se torna tudo aquilo que revela que somos diferentes, limitados ou contraditórios.

6. Precisamos deixar a Persona?

O objetivo da Psicologia Junguiana não é abandonar a Persona, mas torná-la mais flexível e consciente.

Uma Persona saudável nos permite desempenhar nossos papéis sem ficarmos aprisionados a eles. Podemos ser profissionais competentes sem precisar ser perfeitos. Podemos cuidar dos outros sem precisar estar sempre disponíveis. Podemos ser fortes e, ao mesmo tempo, reconhecer nossa fragilidade.

A questão não é deixar de ter uma imagem social, mas conseguir retirá-la quando ela já não é necessária. Como uma roupa, a Persona precisa servir ao indivíduo — e não o indivíduo viver para servir à roupa.

https://iaap.org/wp-content/uploads/2021/05/Persona.pdf?utm_source

An-Outline-of-Analytical-Psychology-—-Edward-F.-Edinger.pdf