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Dra. Alana Dariva | Terapeuta de Orientação Junguiana

Quando o outro se torna um espelho

Na Psicologia Junguiana, a projeção acontece quando um conteúdo da nossa própria psique é percebido como se pertencesse exclusivamente ao outro. Sem perceber, podemos enxergar uma pessoa através de sentimentos, expectativas, medos, desejos ou características que carregamos dentro de nós.

A projeção faz parte da experiência humana e não é, por si só, algo negativo. Ela pode participar da formação dos vínculos, da atração e até da maneira como descobrimos aspectos de nós mesmos. O problema surge quando não conseguimos perceber que estamos projetando e passamos a enxergar o outro apenas através da imagem que construímos sobre ele.

Alguns exemplos:

“Ele é exatamente a pessoa que eu sempre procurei.”

No início de um relacionamento, podemos conhecer pouco sobre alguém e, ainda assim, sentir que encontramos a pessoa ideal. Começamos a preencher as lacunas com nossas expectativas e desejos. Talvez estejamos percebendo o outro como ele realmente é, mas também podemos estar projetando nele uma imagem de parceiro que carregamos internamente.

Com o tempo, quando a pessoa real começa a aparecer com suas limitações e diferenças, podemos sentir uma grande decepção. Às vezes, não deixamos de amar aquela pessoa; apenas começamos a perceber quem ela realmente é para além da imagem que havíamos criado.

“Ele me acha incompetente.”

Uma pessoa que possui grande insegurança em relação à própria capacidade pode interpretar uma observação neutra do parceiro ou de um colega como uma crítica à sua competência. Nesse caso, sua própria dúvida interna pode estar sendo percebida como se viesse exclusivamente do outro.

Isso não significa que o outro nunca critique ou julgue. A questão é investigar: “O que nessa situação pertence ao outro e o que está sendo mobilizado em mim?”

“Ela é arrogante.”

Imagine alguém que sente muita dificuldade em reconhecer sua própria ambição. Ao encontrar uma pessoa determinada, que gosta de se destacar e busca reconhecimento, pode sentir uma irritação muito intensa e classificá-la imediatamente como arrogante.

Talvez a outra pessoa realmente esteja sendo arrogante. Mas também pode existir uma pergunta importante: por que essa característica desperta uma reação tão forte em mim?

Às vezes, aquilo que rejeitamos intensamente nos outros toca uma característica nossa que não nos permitimos reconhecer.

  1. A projeção também pode ser positiva
projeção

Nem toda projeção está relacionada a características que rejeitamos. Podemos projetar no outro qualidades que admiramos e desejamos desenvolver.

Uma pessoa pode enxergar no parceiro uma coragem extraordinária e sentir uma profunda admiração por sua capacidade de se posicionar. Outra pode se encantar pela criatividade, espontaneidade ou liberdade de alguém.

Essa admiração pode conter uma projeção de potencialidades que ainda não reconhecemos plenamente em nós mesmos.

Nesse sentido, o outro pode funcionar como um espelho de possibilidades: aquilo que admiramos pode nos mostrar algo que também desejamos desenvolver.

2. Por que devemos identificar as projeções?

Retirar uma projeção não significa deixar de admirar alguém, deixar de amar ou concluir que “tudo estava na nossa cabeça”.

Significa conseguir diferenciar:

“Quem essa pessoa realmente é?”.

de
“Quem eu preciso que ela seja?”

Quando a projeção diminui, o outro pode finalmente aparecer em sua realidade — com qualidades, defeitos, limites e diferenças.

Isso pode ser um momento importante nos relacionamentos, porque permite substituir a expectativa pela relação real.

3. E quando projetamos a nossa Sombra?

A projeção está intimamente relacionada à Sombra. Aspectos de nós mesmos que não reconhecemos ou aceitamos podem ser especialmente fáceis de perceber nos outros.

Podemos rejeitar intensamente no outro a agressividade que não admitimos em nós. A dependência que nos envergonha. A vaidade que não queremos reconhecer. A vulnerabilidade que aprendemos a esconder.

Por isso, diante de uma reação muito intensa, pode ser interessante perguntar:

“O que exatamente nessa pessoa me incomoda tanto?”
“Isso existe apenas nela ou também toca alguma coisa em mim?”
“O que estou vendo no outro que talvez ainda não consiga reconhecer em mim?”

Essa pergunta não serve para transformar toda crítica em projeção. Algumas pessoas realmente são agressivas, desonestas, controladoras ou desrespeitosas. Reconhecer uma projeção não significa invalidar nossa percepção do outro.

Significa apenas acrescentar uma segunda perspectiva: o que pertence ao outro e o que essa experiência desperta em mim?

É nesse movimento que o outro deixa de ser apenas um espelho e pode começar a ser reconhecido como realmente é — enquanto nós também passamos a nos conhecer um pouco melhor.

https://www.thesap.org.uk/articles-on-jungian-psychology-2/about-analysis-and-therapy/the-shadow/?utm_source

https://jung.org/news/blog/24/24-A-Jungian-View-on-Couples-by-Kathleen-Wiley?utm_source

https://iaap.org/wp-content/uploads/2021/03/Participation-Mystique.pdf?utm_source